Zumbis, o inicio no cinema

A Primeira Guerra Mundial (1914-18) trouxe uma nova forma de lutar para os campos de batalha. Conflitos econômicos, concorrência comercial e industrial, entre outros fatores, criaram um cenário tenebroso no qual trincheiras foram abertas e tecnologia (aviões e tanques de guerra) empregada para matar tanto do lado da Tríplice Entente (França, Rússia e Reino Unido) e Tríplice Aliança ( Itália, Império Austro-Húngaro e Alemanha).

 

Soldados americanos, por volta de 1917.
Soldados americanos, por volta de 1917.

Em 1917, os Estados Unidos entrou na guerra ao lado da Tríplice Entente para defender seus interesses comerciais, o que trouxe a vitória. O Brasil também lutou ao lado da mesma tríplice. De acordo com o site Só História, a Primeira Guerra Mundial teve o saldo macabro de, aproximadamente, “10 milhões de mortos, o triplo de feridos, arrasou campos agrícolas, destruiu indústrias, além de gerar grandes prejuízos econômicos”.

Muitos soldados retornaram desfigurados e imagens dos mortos circulavam por meio da imprensa. Toda essa crueldade e a dureza de viver nesses dias (as mulheres, crianças e adolescentes precisaram trabalhar nas fábricas bélicas, por exemplo). Nesse período, filmes como The Bat (1920), The Monster (1920), The Cat and the Canary (1922) e Drácula (1927) levaram o público a um novo nível de entretenimento.

 

Soldado alemão ferido – maio de 1915
Soldado alemão ferido – maio de 1915

 

Provavelmente, as imagens dos soldados mortos ou que sobreviveram com os rostos destruídos ou sem partes do corpo foram a base para a caracterização de muitos monstros do cinema. A guerra deixou a população insegura e o cinema era uma fuga da realidade. O primeiro filme de zumbi brotou em um terreno preparado por uma produção teatral. “Zombie” (1932) foi um fracasso de bilheteria e uma produção pobre, tendo apenas vinte performances após sua estreia e poucas montagens tímidas no interior dos EUA durante alguns meses até desaparecer. Críticos descreviam pessoas rindo da peça que trazia um casal de haitianos (primeiro interpretado por uma casal de brancos com o rosto pintado de preto e depois por um casal de imigrantes haitianos), figurantes zumbis e um mestre. Tudo isso em três atos.

Entretanto, a ideia do zumbi foi enraizada por essa produção infeliz. A longa de 69 minutos “White Zombie” (Zumbi Branco, 1932), foi dirigido por Victor Halperin e estrelado por Bela Lugosi, que interpretou o feiticeiro maligno Legendre. O ator húngaro aceitou o papel por razões financeiras. Mesmo depois de estrelar as duas versões de Drácula (peça e filme) estava sem sorte. Lugosi desistiu do papel principal do filme “Frankenstein” (1931) por causa da maquiagem e da falta de falas. Quem interpretou o monstro foi o ator inglês Boris Karloff que se projetou no cinema de terror após o sucesso do filme. Além disso, apesar do sucesso de “Drácula”, Bela Lugosi não era hábil nos negócios. O filme faturou milhões, mas ele não teve participação nos lucros, o que se repetiu em “White Zombie”.

Apesar disso, o ator húngaro permanece como o maior astro de ambos os filmes. Nas duas produções não haviam atores memoráveis e impactantes como ele. Em “White Zombie” a mocinha Madeleine foi interpretada por Madge Bellamy, atriz bonita da época do filme mudo e que não estava fazendo sucesso na era falada do cinema (talvez por ter a voz infantil, como eu). O longa ajudou a dar uma sobrevida a atriz que, uma década depois, foi acusada de atirar em Stanwood Murphy, com quem tinha um caso quando ele era casado, mas que após o divorciado preferiu outra. Madge, injustiçada, resolveu assustar o canalha atirando algumas vezes. A atriz, que ganhou a alcunha de “Madge Pistoleira”, foi defendida pelo advogado Jake Elrich e o caso foi abandonado.

 

A primeira zumbi

 

Clique para ver em tamanho maior.
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Voltando a “White Zombie”, o enredo traz Legende (Bela Lugosi) no Haiti, zumbificando trabalhadores locais com uma poção misteriosa. O casal jovem apaixonado Madeleine (Madge Bellamy) e Neil (John Harron) chegam ao país para visitar um amigo, o rico Beaumont (Robert Frazer). O plano era casar na mansão do amigo, que na verdade planejava zumbificar Madeleine com ajuda de Legendre. O feiticeiro, logo no início do filme, pega a echarpe da mocinha enquanto o carro passa lentamente pela estrada que leva o casal a mansão. Com a echarpe Legendre consegue sucesso na zumbificação usando também o artifício da poção.

O filme é em preto e branco, claro, e o clima é de suspense com sustinhos aqui e acolá. Há closes nos olhos de Bela, o que parece assustador quando se assiste um filme desses sozinha e no escuro (a minha poodle Bela reclama se deixo a luz do quarto acesa a noite quando ela resolve dormir pela décima vez num mesmo dia – é a idade).

No final do filme, percebi que o verdadeiro zumbi branco do título é a própria Madeleine. Ela é a mulher branca civilizada e usa a cor durante todo o filme.


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